Site de/of Martine Quentric-Séguy


Às margens do Ganges - Contos dos sábios da Índia
Martine Quentric-Séguy
Idéias & Letras, Aparecida - SP - 2004
304 pp.

_________________________________________________________________________________

CONTOS E HISTÓRIAS

Ivo Storniolo
São Paulo, 19 de novembro de 2004.

 

Contar uma história é viver uma vida. A história projeta o ser no tempo e no espaço. Começa pelo nascimento; depois, a longa trama de situações e acontecimentos, facilidades e obstáculos, momentos alegres ou tristes, encontros, desencontros, avanços ou retrocessos, instantes de luz e fulgurância ao lado de longos períodos de treva, incansáveis tempos de espera e momentos rápidos de celebração intensa. No fim, a morte... Fim de tudo? Simples passagem? Talvez, simplesmente, o fim de uma história e o virar de página para outra história... Conhecer histórias é poder viver simbolicamente muitas histórias - quem sabe, até descobrir uma alternativa concreta para a história que estamos vivendo.

Em meio à grande profusão de publicações às vésperas do Natal, temos o bem-vindo livro de Martine Quentric-Séguy - Às margens do Ganges /Contos dos sábios da Índia (Idéias & Letras) - ótima sugestão para presentes, lembranças... etc. São 68 contos, refletindo temas e questões, provindos da milenar Índia, berço da busca interior da vida e de seu sentido, e contos de sábios, mestres de discernimento e de reflexão. Na realidade, o convite para uma inesquecível viagem.

Um conto ou história é um espelho. Ele reflete nossa vida, a que vivemos ou a que não vivemos. Ajuda - graças a seu reflexo - a compreender nossa vida, descobrindo alternativas que não descobrimos, ou então, alternativas que vemos, talvez sem coragem de nelas embarcarmos. O barco agüentaria até a outra margem? E o remador, agüentaria remar o tempo todo? A viagem levaria a um lugar melhor? O espelho da história ora está na frente, ora dos lados, ora atrás de nós, ora em cima, ora em baixo. Se o pusermos na frente, ele refletirá nosso passado; se atrás, ele refletirá nosso futuro; se o pusermos num dos lados, ele refletirá o lado oposto. Se o pusermos no chão, ele nos refletirá o céu; se o pusermos no céu, ele nos refletirá o mundo. A história-espelho é essencialmente re-flexão, pois ela nos devolve aquilo que buscamos fora, em outros tempos e outros espaços. E, prolongada, essa re-flexão mostra que, por trás de tudo o que buscamos, há apenas uma busca: a do sentido de nossa história - a história que vivemos, ou melhor, a história que somos nós mesmos. Dessa forma, um livro de histórias é um grande espelho, formado, por sua vez, de numerosos pequenos espelhos - um mosaico harmonioso, revelando o grande quadro do existir humano - quadro sem molduras, sempre aberto para integrar novos espelhos.

O livro de Martine Quentric-Séguy é um espelho grande, harmonioso, de excelente qualidade. Ele nos leva à Índia - terra de sonhos e maravilhas para todos nós, ocidentais, sempre dispostos a sair para procurar, buscar, conhecer. Na absoluta maioria das vezes, procuramos o novo, o diferente, o inusitado, o pitoresco, o para-além de tudo o que já conhecemos. Sentimos necessidade de algo que ainda não temos ou não somos. Não sabemos bem o quê. Talvez sequer o imaginemos. Apenas buscamos. Na grande casa de espelhos de Martine, a princípio, encontramos pessoas e situações diferentes. Continuamos. E então, começamos a perceber que as pessoas e as situações diferentes re-fletem, no fundo, nós mesmos, nossas situações, ou muitos de nossos aspectos. À medida que os espelhos re-fletem, encontramos nossa grande busca, a grande pergunta: Quem sou eu? Nesse momento dialogamos com Martine por meio de suas histórias - contos que se contam e que, ao mesmo tempo, nos contam o que somos, o que buscamos, o que podemos encontrar na Índia distante.

Martine nos surpreende, certamente sorrindo - não, sem dúvida, de zombaria, mas com a simplicidade e a naturalidade de quem fez o mesmo caminho e, com simplicidade, nos entrega o mapa da viagem. Também ela foi até a Índia e, portanto, pode nos assegurar: "Vocês procuram sonhos e maravilhas. Buscam o novo, o diferente, o inusitado, o pitoresco, o para-além de tudo o que já conhecem. Pois bem, eis aqui um mapa. Experimentem usá-lo!" É ela própria quem o diz, ao terminar sua Introdução: "Espero que estes contos possam levar vocês ao mais profundo de suas memórias para aí redescobrir os prodigiosos tesouros enterrados em vocês mesmos!"

De fato. Ao terminar o livro, descobrimos que estivemos o tempo todo viajando em uma Índia bem mais distante do que a situada na Ásia. É que, sem querer - ou este era realmente o propósito de Martine? - acabamos descobrindo que os sonhos e as maravilhas da Índia não estão, afinal, na Índia, e sim em nós, em cada um de nós mesmos. Os contos deste livro apontam para uma Índia universal - fora do tempo e do espaço -, dentro de nós, à espera de que cheguemos até ela e a descubramos. É no mais fundo de nós mesmos que encontramos o novo, o diferente, o inusitado, o pitoresco, o para-além de tudo o que já conhecíamos. Encontramos aí o Mistério de todos os mistérios, infinito e inefável. Ele é simplesmente Aquele que nos ama, e então passamos a ser um "eu sou", que consiste em sermos um "ser-amado" dentro do Insondável Mistério que nos ama.

E o que mais se poderia dizer? Não é fácil contar experiências que estão além das palavras. Certas coisas são mantidas em segredo, porque simplesmente não há modos possíveis de contá-las. Mas podemos, sem dúvida, dizer:

- Agradecemos o mapa, Martine! Você nos dá permissão de passá-lo para os outros?

________________________________________________________

Retour page précédente ---------- Retour page d'accueil