Contar uma história é
viver uma vida. A história projeta o ser no tempo e no espaço.
Começa pelo nascimento; depois, a longa trama de situações
e acontecimentos, facilidades e obstáculos, momentos alegres
ou tristes, encontros, desencontros, avanços ou retrocessos,
instantes de luz e fulgurância ao lado de longos períodos
de treva, incansáveis tempos de espera e momentos rápidos
de celebração intensa. No fim, a morte... Fim de tudo?
Simples passagem? Talvez, simplesmente, o fim de uma história
e o virar de página para outra história... Conhecer
histórias é poder viver simbolicamente muitas histórias
- quem sabe, até descobrir uma alternativa concreta para a
história que estamos vivendo.
Em meio à grande profusão
de publicações às vésperas do Natal, temos
o bem-vindo livro de Martine Quentric-Séguy - Às margens
do Ganges /Contos dos sábios da Índia (Idéias
& Letras) - ótima sugestão para presentes, lembranças...
etc. São 68 contos, refletindo temas e questões, provindos
da milenar Índia, berço da busca interior da vida e
de seu sentido, e contos de sábios, mestres de discernimento
e de reflexão. Na realidade, o convite para uma inesquecível
viagem.
Um conto ou história é
um espelho. Ele reflete nossa vida, a que vivemos ou a que não
vivemos. Ajuda - graças a seu reflexo - a compreender nossa
vida, descobrindo alternativas que não descobrimos, ou então,
alternativas que vemos, talvez sem coragem de nelas embarcarmos. O
barco agüentaria até a outra margem? E o remador, agüentaria
remar o tempo todo? A viagem levaria a um lugar melhor? O espelho
da história ora está na frente, ora dos lados, ora atrás
de nós, ora em cima, ora em baixo. Se o pusermos na frente,
ele refletirá nosso passado; se atrás, ele refletirá
nosso futuro; se o pusermos num dos lados, ele refletirá o
lado oposto. Se o pusermos no chão, ele nos refletirá
o céu; se o pusermos no céu, ele nos refletirá
o mundo. A história-espelho é essencialmente re-flexão,
pois ela nos devolve aquilo que buscamos fora, em outros tempos e
outros espaços. E, prolongada, essa re-flexão mostra
que, por trás de tudo o que buscamos, há apenas uma
busca: a do sentido de nossa história - a história que
vivemos, ou melhor, a história que somos nós mesmos.
Dessa forma, um livro de histórias é um grande espelho,
formado, por sua vez, de numerosos pequenos espelhos - um mosaico
harmonioso, revelando o grande quadro do existir humano - quadro sem
molduras, sempre aberto para integrar novos espelhos.
O livro de Martine Quentric-Séguy
é um espelho grande, harmonioso, de excelente qualidade. Ele
nos leva à Índia - terra de sonhos e maravilhas para
todos nós, ocidentais, sempre dispostos a sair para procurar,
buscar, conhecer. Na absoluta maioria das vezes, procuramos o novo,
o diferente, o inusitado, o pitoresco, o para-além de tudo
o que já conhecemos. Sentimos necessidade de algo que ainda
não temos ou não somos. Não sabemos bem o quê.
Talvez sequer o imaginemos. Apenas buscamos. Na grande casa de espelhos
de Martine, a princípio, encontramos pessoas e situações
diferentes. Continuamos. E então, começamos a perceber
que as pessoas e as situações diferentes re-fletem,
no fundo, nós mesmos, nossas situações, ou muitos
de nossos aspectos. À medida que os espelhos re-fletem, encontramos
nossa grande busca, a grande pergunta: Quem sou eu? Nesse momento
dialogamos com Martine por meio de suas histórias - contos
que se contam e que, ao mesmo tempo, nos contam o que somos, o que
buscamos, o que podemos encontrar na Índia distante.
Martine nos surpreende, certamente sorrindo
- não, sem dúvida, de zombaria, mas com a simplicidade
e a naturalidade de quem fez o mesmo caminho e, com simplicidade,
nos entrega o mapa da viagem. Também ela foi até a Índia
e, portanto, pode nos assegurar: "Vocês procuram sonhos
e maravilhas. Buscam o novo, o diferente, o inusitado, o pitoresco,
o para-além de tudo o que já conhecem. Pois bem, eis
aqui um mapa. Experimentem usá-lo!" É ela própria
quem o diz, ao terminar sua Introdução: "Espero
que estes contos possam levar vocês ao mais profundo de suas
memórias para aí redescobrir os prodigiosos tesouros
enterrados em vocês mesmos!"
De fato. Ao terminar o livro, descobrimos
que estivemos o tempo todo viajando em uma Índia bem mais distante
do que a situada na Ásia. É que, sem querer - ou este
era realmente o propósito de Martine? - acabamos descobrindo
que os sonhos e as maravilhas da Índia não estão,
afinal, na Índia, e sim em nós, em cada um de nós
mesmos. Os contos deste livro apontam para uma Índia universal
- fora do tempo e do espaço -, dentro de nós, à
espera de que cheguemos até ela e a descubramos. É no
mais fundo de nós mesmos que encontramos o novo, o diferente,
o inusitado, o pitoresco, o para-além de tudo o que já
conhecíamos. Encontramos aí o Mistério de todos
os mistérios, infinito e inefável. Ele é simplesmente
Aquele que nos ama, e então passamos a ser um "eu sou",
que consiste em sermos um "ser-amado" dentro do Insondável
Mistério que nos ama.
E o que mais se poderia dizer? Não
é fácil contar experiências que estão além
das palavras. Certas coisas são mantidas em segredo, porque
simplesmente não há modos possíveis de contá-las.
Mas podemos, sem dúvida, dizer:
- Agradecemos o mapa, Martine! Você
nos dá permissão de passá-lo para os outros?
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